Na minha infância, a leitura não era muito incentivada entre os jovens. A maioria dos livros da biblioteca da minha escola eram considerados difíceis para o nosso entendimento, afinal tínhamos 8, 9 anos e os livros mais de 200 páginas, com uma linguagem mais sofisticada. Então, a diretora da época teve uma ideia que, literalmente, me fez ter amor à leitura: vamos colocar as crianças para ler histórias em quadrinhos, impondo metas de leituras e alguns prêmios para aqueles que as atingirem.
Lembro claramente da minha primeira reação ao pegar uma revistinha do Homem-Aranha e de Dragon Ball: tudo aquilo que eu via distante numa televisão estava nas minhas mãos, era algo mágico. Me recordo que as terças-feiras eram meus dias favoritos, era dia de ir à biblioteca, era o dia mais divertido da minha semana. Todos os meus colegas de classe da época, que ainda tenho o mínimo de contato, ainda mantém o gosto da leitura.
No mundo todo a cultura dos quadrinhos é muito forte, principalmente entre os jovens, e isso é de grande ajuda no incentivo à leitura. No Japão, essa cultura é ainda mais forte do que no resto do mundo, superando até os Estados Unidos com seus heróis e vigilantes mascarados. Os mangás, como chamados os quadrinhos japoneses, tiveram seu estrondoso crescimento na segunda guerra mundial, mais especificamente após as bombas nucleares. As histórias serviam para distrair os jovens do que estava acontecendo no país, e quase sempre possuía algumas metáforas para as catástrofes ou a ameaça que o ocidente representava. Grandes exemplos disso são as obras Akira, de Katsuhiro Otomo, Adolf e Astro Boy, ambas do grandioso Osamu Tezuka.
Os mangás ganharam tanta popularidade entre os jovens por serem extremamente acessíveis, custando o equivalente à centavos, e essa cultura do baixo custo permanece até hoje. Editoras como a Shueisha, famosa mundialmente por obras como Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíado e Naruto, possuem a politica de toda semana, lançar um capítulo de cada obra da editora (atualmente possui 18 títulos sendo publicado pelo selo mais famoso da editora, a Weekly Shonen Jump) compilados e uma só revista. Todo esse conteúdo sendo vendido por centavos!
Infelizmente essa cultura de lançamentos semanais não chegam ao ocidente. O que chegam aqui são volumes fechados de cada título, que custam, aqui no Brasil, uma fortuna! Algo que vale centavos no Japão é vendido aqui por, no mínimo, 30 reais! É óbvio que a cultura dos mangás chegam aqui enfraquecidas.
Porém, a Shueisha já passou por diversas crises, e o mercado ocidental sempre fez a editora lucrar muito. Eles não querem perder espaço no mercado. Eles querem que seu produto seja, acima de tudo, consumido. Então eles aparecem em janeiro de 2019 com um anuncio surpreendente: Manga Plus. Um aplicativo de celular que eles publicam seus títulos semanas e todos os outros já finalizados, com um valor absurdo de... um click de propaganda. Sim, o aplicativo é grátis, você só precisa abrir umas propagandas para que eles consigam manter o app.
Vocês conseguem entender a importância disso? Nossos jovens conseguirão novamente ter essa proximidade com os quadrinhos, podendo despertar um amor pela literatura como eu despertei. Milhares de títulos mundialmente reconhecidos de graça e no seu celular. Nossos jovens terão a oportunidade de conhecer outra cultura, ter um pedacinho de outra sociedade no seu celular.
A tecnologia que antes discutíamos "como ela está impedindo as crianças e os adolescentes de ler" está nos dando as melhores ferramentas para incentivar a leitura, facilitando o acesso, independentemente da classe social.
Mas obviamente que não vou ignorar os problemas dessa ferramenta. Como por exemplo eu deixar de estudar para as minhas provas pra ver japoneses em robôs matando monstros gigantes.
por Murillo
Eu ADORO quando uma coisa tão simples faz com que portas de possibilidades se abram pra gente. Essa questão de se apaixona pela leitura por causa de HQs é tão legal!
ReplyDeleteVocê falando sobre esse MangaPlus me lembrou que a Marvel mesmo tinha um desses que você podia ter acesso aos quadrinhos, e é incrível! Porque convenhamos, se os mangás custam essa fortuna, os quadrinhos super conhecidos podem chegar a R$90,00. Além, claro, de nos dar a possibilidade de acesso à títulos que são impossíveis de achar por aqui...